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sexta-feira, 27 de julho de 2012


A Proteção aos Animais

Na última quinta-feira, e a convite da redação deste jornal, conferenciaram com esta representantes do Diário dos Açores e da Revista Pedagógica.
Não corresponderam ao aviso que lhes foi remetido por haverem manifestado a sua simpatia pela criação de uma Sociedade Protetora dos Animais, os redatores do Correio Micaelense, nem do São Miguel, tendo o primeiro, sr. Dr. Humberto de Bettencourt, escrito à mesma, alegando a impossibilidade de comparecer à reunião.
Os representantes dos três jornais acima citados deliberaram elaborar estatutos, que serão submetidos à aprovação do governo, devendo reunir-se na próxima segunda-feira, a fim de prosseguirem nos seus trabalhos iniciais.
Aprovados os estatutos, serão convidados a aderir todos os cidadãos de ambos os sexos residentes no distrito, cooperando cada um com uma pequena quota anual, cuja totalidade será depositada na Caixa Económica da Associação de Socorros, destinando-se a prémios, anualmente conferidos, em sessão solene, a quantos se tiverem evidenciado pela sua piedade para com os animais.
Pela redação da Folha foi também alvitrado que se mandasse cunhar uma medalha, que servisse de distintivo aos sócios, tendo verso e anverso, e apresentando num a cabeça de um cão da Terra Nova, e no outro a de um boi, com as seguintes legendas, em um dos lados: Sociedade Protetora dos Animais Micaelense, 1908, e no outro: Pelos nossos irmãos inferiores, frase esta da autoria, como é sabido, de um sábio doutor da igreja.
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Cumpre-nos agora registar, com os elogios que merece, um acto do sr. Capitão João Francisco da Silveira, digno comissário de polícia, que tendo visto, há dias, um indivíduo arrastar brutalmente pela orelha um pobre cão, o mandou chamar por um dos seus subordinados, ameaçando-o com o calabouço, se reincidisse em maltratar o animal.
Folgamos de mencionar este facto, que muito honra a autoridade policial.
É pela proteção aos seres naturalmente desprotegidos que se aquilata a superioridade moral de um povo.
Os americanos, cuja civilização se impõe ao respeito dos países mais adiantados, timbram nas suas leis, em demonstrar, acima de tudo, a sua deferência para com as mulheres, o seu respeito para com os velhos, a sua piedade para com os animais.
Uma cruzada persistente e cheia de dedicação, por parte da imprensa, conseguirá certamente incutir no ânimo de muitos o que sentem alguns, e o grande espírito e grande coração de Emílio Zola, magistralmente interpretaram:
Por que é que o sofrimento dos animais me comove tanto? Porque é que eu não posso ficar insensível à ideia de que um pobre animal sofre, a ponto de me erguer de noite, em pleno inverno, para me certificar de que ao meu gato não falta ração de água? Por que é que a todos os seres da criação considero como relacionados comigo, e a sua lembrança me enche de comiseração, de tolerância e de ternura? Porque os animais fazem também parte da comunidade a que pertenço e a que pertencem todos os meus semelhantes!
(A Folha, nº 321, 29 de Novembro de 1908)

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