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terça-feira, 18 de setembro de 2012

Numa tourada (II)



Muito embora em vários assuntos que nessa ocasião discutimos nos encontremos de perfeito acordo, não abordo o tema perigosíssimo das touradas, nem lhes comunico o que me vai na alma …
De resto, a tourada decorreu como todas as que tenho assistido. Houve ferros bem metidos, e ruidosamente festejados, e após a saída de cada novilho, a quadrilha percorreu a arena, sendo-lhe arremessados dinheiro, flores, cigarros e rebuçados, que os toureirinhos levantavam, agradecendo com garbo peculiar da sua raça.
A única nota discordante é a de um tourinho muito levado da breca, que, logo ao entrar no circo, parece dar cabo de tudo.
Os toureiros, prudentemente, depois de alguns simulacros de desafio, ocultam-se atrás dos esconderijos, sendo conduzidos à arena as doceis vacas pacificadoras, destinadas a induzir o touro a recolher-se ao curral.
Este, porém, ébrio de fúria, e sacudindo belicamente as pontas que se desembolaram, fere com certa profundidade, no peito, uma das companheiras, correndo o sangue em grossos jorros.
Foi a simpática rês a única vítima daquela diversão, tão apreciada pelos nossos vizinhos de oeste. Não é preciso dizer que não saí do circo sem ir inquirir da saúde da pobre sacrificada, encontrando-a muito ferida, sim, mas já pensada, e sofrendo a sua má sorte com uma coragem estoica, o que é, aliás, muito mais vulgar nos irracionais do que na nossa espécie.
E divido com o nobre animal, tão estupidamente ferido, parte da muita simpatia que sagrara ao cavalinho esquelético, daquela quase inofensiva tourada.
(in Cartas das Ilhas, XX, A Folha, nº 487, 10 de Março de 1912)

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