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quarta-feira, 8 de julho de 2015

A propósito do Caldeirão


A propósito do Caldeirão

Desde 1981, ano em que estava a trabalhar na ilha Terceira e entrei em contato com a associação Os Montanheiros, que tenho interesse por tudo o que diz respeito à espeleologia, entendida quer como “ramo da ciência que se dedica ao estudo de cavidades subterrâneas” quer como atividade de exploração de grutas e algares.
Tentando seguir as pisadas daquela associação terceirense, primeiro a título individual, em conjunto com alguns amigos e familiares, e depois integrado na associação Amigos dos Açores, tentei fazer um redescobrimento das cavidades vulcânicas da ilha de São Miguel que culminou com um trabalho de campo exaustivo, no primeiro semestre de 1988, o qual deu origem a um relatório/comunicação que foi enviado ao “5th International Symposium on Vulcanospeleology” que se realizou no Japão.
No referido relatório, cheio de lacunas, pois tanto os autores como os demais colaboradores possuíam poucos meios e falta de conhecimentos, foi feita referência a 15 grutas visitadas, até então na ilha de São Miguel, e a outras 6, referidas na biografia existente ou mencionadas por diversas pessoas, entre as quais o Caldeirão.
Sobre este, no mencionado relatório da minha autoria e da do Dr. George Hayes, sobre aquela cavidade vulcânica apenas era mencionado o seguinte: “No Caldeirão, a nordeste de Ponta Delgada existe uma gruta que possuía três aberturas, hoje tapadas. Pela descrição que possuímos de uma pessoa que a visitou deveria possuir mais de um quilómetro de extensão”
Hoje, pouco mais se sabe pois foram poucas as pessoas que lá estiveram e todas as tentativas que foram feitas para encontrar uma possível abertura até ao momento têm sido infrutíferas.
A seguir, aproveito a oportunidade para relembrar algumas opiniões que ao longo dos tempos foram dadas sobre o Caldeirão, umas no sentido da sua destruição e outras da sua manutenção com vista ao seu aproveitamento turístico, bem como dar a conhecer um resgate de animais que lá foi feito pelos Bombeiros Voluntários de Ponta Delgada.
A 26 de janeiro de 1963, Manuel Inácio de Melo, que conhecia o Caldeirão, mais ou menos, desde, 1905 escreveu no Correio dos Açores que havia visitado aquela “cratera extinta” onde “ali saiu fogo, por ali respirava um vulcão que atormentou os nossos antepassados”.
Segundo ele, que estava acompanhado por um luso-americano que não o conhecia, para ver a profundidade do Caldeirão deixou cair uma pedra que “produziu um som cavernoso” e “começaram a ouvir, um certo número de cães, a uivar, certamente de fome” e prosseguiu informando que mesmo na estrada “ainda se ouviam os gritos angustiosos daqueles pobres animais que, com certeza, ali vão morrendo de fome”.
Para concluir o seu texto, Manuel Inácio de Melo apela a quem de direito para encher o Caldeirão de cascalho, permitindo assim acabar com “uma sepultura de animais perdidos para a vida ou consumo” e terminar com “aquela má nota e má impressão que nos causa ao ouvir cães a uivar com fome”.
Através de uma reportagem publicada, a 1 de fevereiro de 1963, no Correio dos Açores intitulada “A cinquenta metros de profundidade foram desvendados os mistérios do Caldeirão pelo Comandante dos Bombeiros Voluntários Roberto Zagalo Cardoso”, os leitores ficaram a saber que o apelo de Manuel Inácio de Melo não caiu em saco roto e que o referido comandante acompanhado pelos bombeiros Gilberto Soares Pereira e Teófilo Joaquim Vicente desceram àquela “cova misteriosa onde tudo entra para não mais sair”.
Para além da descrição daquela cavidade, o comandante Zagalo Cardoso disse que os únicos animais ferozes que encontrou foram “os mosquitos e as pulgas” e que os oito cães que trouxeram “entregaram-se docilmente, ganindo à sua volta como a pedir socorro, outros, nem forças tiveram para qualquer reação, tendo sido içados por quatro vezes dentro de sacos”.
Na mesma reportagem o comandante dos bombeiros de Ponta Delgada recordou que para além do apelo de Manuel Inácio de Melo, aquela descida para resgate de animais deveu-se “à recordação de uma antiga vizinha deste Quartel- D. Alice Moderno – cuja campanha zoófila recordo ainda com enternecimento, pois fiz parte da antiga Associação Protetora dos Animais, infelizmente, julgo que extinta”.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30673, 8 de julho de 2016, p.16)

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