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quinta-feira, 3 de novembro de 2016

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Sociedade Protetora dos Animais



Sociedade Protetora dos Animais

O sr. Francisco Maria Supico, nosso distinto e respeitável colega de A Persuasão e Gazeta da Relação, no seu número de 28 de setembro, do primeiro desses jornais, inseriu a seguinte local:
“Proteção aos animais – A nossa distinta colega, d’A Folha, reproduzindo no seu número de 11 do corrente, um belo artigo do sr. João Anglin, aluno muito considerado do Liceu Central desta cidade, sobre criação de uma sociedade protetora dos animais, a nossa referida colega, repetimos, aproveitou o ensejo para continuar na simpática, porém até agora pouco feliz propaganda da proteção aos animais. Está muito bem entregue a causa. Para advogar as que ferem a sentimentalidade, não há como o coração duma senhora, mormente se ela dispõe dum espírito luminoso e culto, como o da ilustre colega srª D. Alice. E como a primorosa escritora se lamenta agora o ter-se visto desajudada dos colegas neste humanitário trabalho, acudimos a dizer-lhe que não sabemos explicar a causa do nosso silêncio, a nenhum modo propositado, mas conseguindo-se ir guardando para amanhã (o santo amanhã de Portugal) o principiar de qualquer coisa que poder ter demora na conclusão. De um dia para o outro, de semana e mês para semana e mês vai decorrendo o tempo, passam anos até que por nós mesmos é censurado este espasmo de torpor que tanto nos magoa.
E aqui está a nossa desculpa no caso presente. Não lhe atribua outra origem a ilustre colega, e conte com o nosso aplauso à sua cruzada e com o auxílio mais ou menos débil, que lhe possamos dar.”
Agradecendo ao ilustre confrade as amabilidades que nos dirige, pedimos-lhe licença para as contestar, e igualmente a classificação de débil com que adjetivava o seu auxílio, em prol dos nossos irmãos inferiores.
Na imprensa não há, felizmente, vox clamantis in deserto, quando a causa é justa e a forma é correta, além de que, a voz do ilustrado colega, sr. Franscisco Maria Supico, decano da nossa imprensa, ecoou sempre no meio micaelense com sonoridade e clareza, sendo consequentemente importante o seu auxílio, que registamos e com o qual ficamos a contar.
Realizar-se-ão brevemente, na redação deste jornal, algumas sessões noturnas em que serão elaborados e discutidos os estatutos, a fim de serem submetidos à autorização superior.
Para presidente da Sociedade será convidado o sr. António José de Vasconcelos, grande proprietário, agricultor, lavrador e benemérito micaelense, sendo os restantes membros da Direcção eleitos pela assembleia geral, composta de todos os cidadãos, sem distinção de sexo, idade ou classe, que queiram pertencer à sociedade.
De todos os trabalhos realizados iremos dando conta nos seguintes números deste jornal.
(A Folha, nº 415, 2 de Outubro de 1910)

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

João Anglin e a Sociedade Protetora dos Animais




Sociedade Protetora de Animais

A Vida Nova, no seu nº de 15 de agosto, publicou o seguinte artigo, da autoria do Sr. João Anglin, distinto aluno do Liceu Central desta cidade:
Uma das mais manifestas provas da ignorância do nosso povo é a feroz brutalidade que usa com os pobres animais que na maioria dos casos lhe são um valioso auxílio na luta quotidiana pela vida.
Estes repugnantes espectáculos que diariamente se repetem nas ruas desta cidade nada atestam a favor da nossa boa terra, antes a desconceituam aos olhos dos estrangeiros que nos visitam os quais nos terão na conta de brutos a julgar por essas cenas bárbaras de que são vítimas os pobres animais indefesos.
Com isto não queremos dizer que o povo seja mau, porque de há muito está provado que não há homens maus. O que há apenas é essa crassa ignorância por cuja perpétua conservação tanto se empenham os políticos e governantes.
Um dia virá em que essas atrocidades serão por completo eliminadas, mas antes de se chegar a essa época de felicidade era bom que alguma coisa se fizesse no sentido de melhorar a sorte desses pobres seres que tantos serviços prestam ao homem e que em recompensa recebem forte pancadaria quando porventura se encontram impossibilitados de trabalhar tanto quanto os seus donos exigem. É para evitar estas bestialidades que existem as Sociedades Protectoras de Animais.
Na nossa terra já alguém se lembrou de fundar uma sociedade destas e se não nos enganamos chegaram a ser elaborados os estatutos mas até agora não nos consta que além deste se tenham empregado outros quaisquer esforços para a realização dessa excelente ideia.
Os órgãos da imprensa local que tanto alarde fizeram quando se apresentou o alvitre da fundação de uma Sociedade Protetora de Animais calaram-se misteriosamente sem que até hoje saibamos o motivo desse súbito silêncio. Do mesmo modo o público o desconhece e por isso pedimos que nos digam qual o fim que levaram os estatutos da Sociedade: se foram dormir o sonho dos justos no cesto dos papéis velhos e inúteis ou se ainda existem para algum dia terem a sua aplicação.
Pela nossa parte ao lermos o artigo do Sr. Anglin, pegamos na carapuça, que tão bem talhara, e encaixamo-la na cabeça até abaixo das orelhas...
҉
A Folha foi e tem sido, de há oito anos para cá (longa peregrinação esta, pelo calvário da imprensa periódica!) uma defensora dedicada dos direitos dos pobres animais, tão mal tratados, nesta terra, pelas classes menos cultas da sociedade.
Abriu mesmo uma campanha, generosamente secundada por alguns colegas.
Estabeleceu-se que se redigiriam estatutos para a criação da Sociedade Protetora dos Animais, estatutos  que deveriam ser submetidos à aprovação superior.
Depois…os trabalhos inerentes a quem luta pela vida, foram obrigando os que mais dedicadamente haviam lançado e patrocinado a ideia, a dilatar a sua execução.
Da teoria à ação vai muitas vezes uma distância enorme. E assim foram continuando sem proteção legal, entre nós, os pobres animais que tão bons serviços nos prestam.
E por isso, continuam a ser vistos, pelas ruas de Ponta Delgada, a 3ª cidade do reino:
Muares cheios de feridas, deslocando, da Ribeira Grande a Ponta Delgada, e vice-versa, grande s veículos que transportam 12 pessoas e variada carga.
Carneiros e cabras utilizados como animais de tiro.
Cães obrigados a pegarem com os dentes em cestos que contêm géneros alimentícios em grande quantidade.
Animais de tiro puxando carroças cheias de cunhais, e cujo zelo pelo trabalho é estimulado com pancadas dadas pelos carroceiros por meio de grossos fueiros.
E isto tudo, para edificação dos estrangeiros que nos visitam, para aproveitamento moral das crianças que temos o dever de guiar, para aperfeiçoamento dos cidadãos, com os quais vivemos, com os quais somos solidários…
Muito longe de nós a ideia de increparmos a responsabilidade do que apontamos a quem quer que seja, individualmente falando.
A responsabilidade é de todos e, como já declarámos, pela nossa parte, encaixamos na cabeça a carapuça, muito bem talhada pelo sr. Anglin, na Vida Nova.
Mas urge providenciar, em nome da caridade que nos merecem os pobres animais que tão bons serviços prestam, o que , como escrevemos algures, nos guardam, nos servem e nos amam com tão enternecido afeto.
É necessário que do âmago de todos os corações surja para com eles um pouco de piedade e de amor.
E como o analfabeto não compreende que, aos direitos que lhes assistem sobre eles, correspondem deveres em igual intensidade, é mister que intervenhamos, com toda a eficácia da lógica, e com todo o rigor aparente da Lei.
E mais uma vez apelamos para a Imprensa, e temos fé que, ao menos agora, saberá unir-se com mais solidariedade e agir com mais energia.
As teorias, mesmo as melhores, abrem caminho, é certo, mas de pouco servem, se a prática não as vem completar.
E assim, continuemos com dedicação e com fé, até completa vitória, nesta generosa campanha em prol daqueles a quem São Francisco de Assis chamou:
“Os nossos irmãos inferiores”
(A Folha, nº 412, 11 de Setembro de 1910)