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quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Mariana Belmira de Andrade

Mariana Belmira de Andrade e Alice Moderno A professora primária Mariana Belmira de Andrade foi uma romancista e poetisa que nasceu, em São Jorge, no dia 31 de dezembro de 1844 e faleceu na mesma ilha no dia 17 de fevereiro de 1921. Dotada de uma inteligência excecional, segundo Alice Moderno, Mariana de Andrade foi para aquela escritora “uma distinta mulher de letras, que foi uma das boas mentalidades do arquipélago açoriano, bem privilegiado, aliás, sob o ponto de vista da intelectualidade dos seus habitantes.” Mariana de Andrade, que não frequentou qualquer estabelecimento de ensino secundário ou superior, segundo Alice Moderno “aprendeu quase sozinha a tocar piano e a ler e traduzir a língua francesa”. A sua vasta cultura deve-se também ao convívio com outros intelectuais, como João Caetano de Sousa e Lacerda e com a senhora Delfina Vieira Caldas, que foi perceptora dos filhos do Conselheiro José Pereira Silveira e Cunha. Os seus conhecimentos são devidos também, segundo Ilda Soares de Abreu, às leituras que fez de Vítor Hugo, Michelet, Gomes Leal e Antero de Quental. Mariana Belmira de Andrade casou-se, aos 34 anos, com António Maria da Cunha, não tendo o casamento sido feliz o que levou à separação dos dois logo após o batizado do único filho do casal, Inocêncio, cujo nome foi motivo de discórdia entre os progenitores. Alice Moderno, sobre este assunto, escreveu o seguinte: “Contava a ilustre poetisa que entre os cônjuges se travara acesa discussão, que foi até à pia batismal, tendo sido a contenda finalizada pelo pároco, que acedeu aos desejos do pai, objetando à mãe do neófito que: onde há galo não canta galinha.” Depois da separação, Mariana de Andrade foi para a ilha Terceira, onde obteve o diploma de professora primária, o que lhe permitiu obter os recursos para a sua sobrevivência, bem como a do seu filho. Mariana de Andrade foi autora de muitos poemas, publicados em vários jornais e revistas, entre os quais o jornal “A Folha”, dirigido por Alice Moderno, de que era sua hóspede aquando das suas viagens de e para Lisboa. Panteísta, Mariana de Andrade, depois do romantismo inicial, entusiasmou-se com as ideias republicanas e socialistas, tendo escrito poemas a exaltar o trabalho e os trabalhadores, como se pode constatar através do seguinte extrato de A Sibila: “Levanta-te plebeu! … Tu, aviltado, pobre, Tu és igual ao grande, ao potentado, ao nobre! … Tombam por sobre o nada os absurdos preitos, As velhas tradições, os velhos preconceitos, Onde o século destrói, esmaga n’um sorriso De zombaria e dó … Razão! … luz peregrina! Ó imortal farol que as almas ilumina! Levanta-te, plebeu! Se o nobre tem a espada, Herança dos avós, tu tens a dura enxada, A picareta, o escopro, a serra, o rijo malho! Eis teus troféus de glória, ó filho do trabalho!” Indignada com o regicídio que vitimou D. Carlos e D. Luís Filipe, Mariana Belmira de Andrade abandonou as suas ideias revolucionárias e reconciliou-se com a igreja católica. Sobre a sua desilusão com os republicanos, mal que também atormentou Alice Moderno, esta escreveu o seguinte: “Sonhara a revolução pela evolução e o derramamento de sangue acordou nela a sensibilidade feminina de que fora a primeira a duvidar. Poupou-lhe a morte o desgosto de ver que a Revolução, como Saturno, devorava os próprios filhos!”. Teófilo Braga (Correio dos Açores, 32287, 18 de novembro de 2020, p.14)

terça-feira, 7 de abril de 2020

As feministas e o trabalho

Maria Evelina de Sousa

As feministas e o trabalho

Algumas correntes de esquerda, suponho que minoritárias, criticam os movimentos feministas atuais pelo facto de ignorarem as questões do trabalho, como o facto das mulheres terem ordenados mais baixos do que os homens para a mesma função, serem as principais vítimas dos empregos precários e, por último, não porem em causa o sistema de exploração que domina todo o mundo.

No passado, embora não ignorassem por completo o acesso ao trabalho e as condições deste fora de casa, também me parece que as principais questões levantadas pelas feministas eram, essencialmente, o direito ao voto e o acesso à educação.

Alice Moderno considerava que era importante a mulher ter acesso à educação, que era melhor do que ter um bom dote, para possibilitar ter um bom trabalho e uma vida não dependente de outrem. Segundo Maria da Conceição Vilhena, Alice Moderno defendia o seguinte:

“O papel social da mulher começa em casa, junto da família, onde a mulher burguesa deverá deixar de ser um dispendioso objeto de luxo ou “um cabide de vestidos” que o marido compra”

Maria Evelina de Sousa, a menos conhecida das duas companheiras feministas açorianas, numa carta a Ana de Castro Osório, que então ocupava o cargo de Inspetora dos Trabalhos Femininos de Portugal, publicada, no dia 1 de abril de 1917, no jornal “A Folha”, é clara na importância que dá ao trabalho feminino. Assim, depois de referir a importância de serem criadas “indústrias femininas” pelo contributo que poderiam dar “para a economia política do país”, acrescenta o seguinte:

“Não só compreendo a vantagem material que semelhantes indústrias nos proporcionariam, mas também avalio o simpático papel que desempenhariam, no campo moral porque, habituando a mulher a bastar-se a si própria, vivendo dos recursos do seu trabalho honesto, dignificavam-se, fazendo com que desprezasse o servil estado de alimentada do marido, do pai, do irmão ou, na falta deste, do amante”.
E por isso a criação de indústrias femininas seria o melhor, o mais eficaz e enérgico de todos os expedientes para fazer desaparecer a cancerosa pústula da prostituição, vergonha social, que enxovalha as famílias e corrompe as sociedades, desde os mais remotos tempos.”

Maria Evelina de Sousa, na carta referida, também, recordou que dedicou ao assunto da criação de indústrias femininas alguns textos na sua Revista Pedagógica, nomeadamente aquando da criação, em Ponta Delgada, da efémera Escola de Rendas de Bilros e voltou a referir a importância da criação em São Miguel de indústrias de rendas e bordados que poderiam ser exportados para o Novo Mundo.

Ana de Castro Osório, que foi jornalista, escritora, pedagoga, feminista e ativista republicana, por sua vez, no jornal “Açoriano Oriental, de 22 de setembro de 1917, num artigo intitulado “Respeito pelo trabalho”, aborda a questão do trabalho da mulher, denunciando que em Portugal o valo pago pelo trabalho feminino é uma coisa ridícula, para não dizer uma coisa odiosa”.

No seu texto Ana de Castro Osório denuncia que o que é pago pelo trabalho da mulher não é suficiente para ela “viver honestamente do seu próprio labor” e acrescenta que a mulher recebe um terço ou menos do que seria pago a um homem.

Termino este texto, ainda com um excerto do artigo de Ana de Castro Osório, muito elucidativo do pensamento de então (e de hoje?):

“Já dissemos a falta de respeito pelo trabalho da mulher, que esse é matéria corrente numa sociedade em que de alto a baixo das classes sociais os homens olham as suas companheiras como umas bonecas fabricadas pelo bom Deus providencial para o seu único proveito e divertimento…”

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 32101, 8 de abril de 2020, p.14)

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Teresa Franco e a Revista Pedagógica de Maria Evelina de Sousa


Teresa Franco e a Revista Pedagógica de Maria Evelina de Sousa


Através de um Professor Adjunto de Literatura Portuguesa da Universidade de Estado do Rio de Janeiro, que me contatou a pedir informações sobre a escritora feminista da Covilhã Teresa Franco, fiquei a saber que tanto esta como a micaelense Maria Evelina de Sousa possuíram colunas fixas no jornal dos imigrantes portugueses, o Portugal Moderno, no início do século XX. Da correspondência trocada, também, fiquei a saber que no referido jornal brasileiro colaborou Alice Moderno.

Teresa Franco colaborou com as principais organizações feministas portuguesas, como a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, a Associação de Propaganda Feminista e o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, tendo escrito para as suas publicações periódicas.

No que diz respeito aos Açores, Teresa Franco colaborou com Maria Evelina de Sousa, através da escrita de pequenos textos para as secções “Notas feministas” e “Notas de uma feminista”, sobre o feminismo internacional que manteve, entre 1911 e 1914, na Revista Pedagógica.

A título de exemplo, apresenta-se a seguir alguns dos temas abordados por Teresa Franco na referida revista.

Na Revista Pedagógica, publicada a 7 de dezembro de 1911, Teresa Franco dá a conhecer as palavras de Lorde Lytton sobre o sufrágio feminino o qual é “falsamente interpretado” como “uma tentativa feminina para usurpar os direitos do homem arrebatando-lhe os poderes políticos”. O texto termina assim: “Se entre as nesta luta empenhadas um sentimento de hostilidade contra o sexo masculino existe, tem por alvo simplesmente o falso ideal da mulher, a falsa conceção do seu lugar na sociedade e no Estado, que outrora prevaleceu na maioria dos homens e ainda nalguns subsiste.”

A 14 de março de 1912, Teresa Franco dá a conhecer o modo brutal como as sufragistas inglesas são tratadas quando para chamar a atenção para a sua causa interrompendo “os ministros que supõem contrário às suas ideias por ocasião dos “meetings””. Segundo ela “num comício em Glocester uma senhora foi arrastada e quiseram atirar com ela de uma escada abaixo. Magoaram outra com pontapés, sem mais cerimónia…”.

Na mesma nota, Teresa Franco dá a conhecer um extrato do discurso do rei da Suécia, com ideias muito avançadas para o seu tempo, que abaixo se transcreve:

“Às mulheres em questão de vital importância faltam os principais direitos cívicos. Não somente por equidade, mas atendendo aos verdadeiros interesses do Estado, semelhante estado de cousas requer alteração. Tenciono, portanto, no decurso da próxima época, submeter à vossa apreciação algumas alterações dos regulamentos parlamentares que tornem as mulheres eleitoras e elegíveis, nas mesmas condições dos homens”.

Na Revista Pedagógica nº 261, de 29 de maio de 1913, Teresa Franco dá a conhecer várias iniciativas tomadas em diversos locais do planeta. Assim.

1- No Japão um decreto do imperador autoriza, pela primeira vez, a imperatriz a sair ao seu lado nas carruagens.
2- Nos E.U.A., uma nova Joana d’Arc, Virgínia Brooks, “organizou uma cruzada feminina contra os antros do vício da cidade gigante, pondo em foco a corrupção que ali reina, devido à cumplicidade de empregados dos infiéis”.
3- Em Londres, foi inaugurada uma pensão para a classe trabalhadora feminina que a preços reduzidos pode ter acesso a quarto, banho e refeições. Podem beneficiar da mesma “operárias das fábricas, costureiras, empregadas de escritórios, etc., que não tenham família”.

Teresa Franco, tal como outras mulheres e homens do seu tempo, também se preocupou com o consumo de tabaco e com o alcoolismo. Assim, em 1912, participou numa campanha para exigir a proibição da venda de tabaco e de bebidas alcoólicas a menores.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 32042, 30 de janeiro de 2020, p.17)

terça-feira, 20 de novembro de 2018

ALICE MODENO E MARIA EVELINA DE SOUSA HOMENAGEADAS EM LISBOA


ALICE MODENO E MARIA EVELINA DE SOUSA HOMENAGEADAS EM LISBOA

Alice Moderno e Maria Evelina de Sousa foram duas mulheres que se distinguiram no seu tempo, tendo o seu trabalho em diversas áreas sido reconhecido não só no arquipélago como fora dele.

Se sobre Alice Moderno há várias obras publicadas, com destaque para três livros da Professora Doutora Maria da Conceição Vilhena, a vida e a obra de Maria Evelina de Sousa está muito longe de ser conhecida, entre nós açorianos.

Injustamente ignorada ou vista como uma “ajudante” de Alice Moderno Maria Evelina de Sousa teve um pensamento próprio e uma intervenção inovadora na área da educação, sendo de destacar a sua Revista Pedagógica que já serviu de tema a uma desse de mestrado de Isolina Júlia dos Reis e Reis de Medeiros, intitulada “Revista Pedagógica (1906-1916). A modernidade do Pensamento Pedagógico em São Miguel nos Inícios do Século XX”, que merece uma leitura atenta.

No texto de hoje, damos a conhecer dois eventos, ocorridos em Lisboa, em que as duas açorianas foram homenageadas. Assim, Alice Moderno, açoriana pelo coração, já que nasceu em Paris, e Maria Evelina de Sousa, natural de Ponta Delgada, foram alvo de reconhecimento público, em agosto de 1912, na sede da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas e em maio de 1924, por ocasião do 1º Congresso Feminista e de Educação que se realizou de 4 a 9 de maio.

A primeira homenagem referida foi amplamente noticiada pela imprensa lisboeta, tendo “O Mundo”, dirigido por França Borges, publicado uma notícia no próprio dia e no dia a seguir ao evento. Na nota publicada, no dia 10 de agosto, dia da homenagem, podemos ler o seguinte: “É hoje, como noticiamos, que se realiza na sede da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas uma sessão de homenagem às distintas escritoras D. Maria Evelina de Sousa e D. Alice Moderno, a última das quais é sobretudo uma notável poetiza…”

A segunda, como já afirmámos ocorreu no 1º Congresso Feminista e de Educação, na sequência da intervenção de Tito de Sousa Larcher que mencionou o facto de que nos Açores, de acordo com os dados estatísticos, havia mais mulheres do que homens a saber ler. Aquele ilustre cidadão nascido em Braga, mas que se distinguiu pelo seu trabalho em Leiria, onde doou à Biblioteca e Arquivo Distrital cerca de 3200 obras, propôs “um voto de saudação às mulheres açoreanas que, no meu entender, deve partir da mesa, dada a alta categoria social do seu presidente.”

A congressista Judith Rocha associou-se às palavras de Tito Larcher e recordou os nomes de Alice Moderno e Maria Evelina de Sousa. A sua intervenção, transcrita no livro “O Primeiro Congresso Feminista e de Educação (Relatório)” da autoria de Arnaldo Brazão, publicado pelas Edições Spartacus, em 1925, foi a seguinte:

“A propósito das considerações do Sr. Titi de Sousa Larcher, das quais se vê que a mulher açoreana é menos analfabeta que o homem, eu quero lembrar o nome de duas propagandistas do feminismo e da educação da mulher nos Açores, as senhoras D. Alice Moderno e D. Maria Evelina de Sousa, e apresento a seguinte proposta de aditamento à do Sr. Tito Larcher:

Proponho que dessa saudação proposta à mulher açoreana se destaquem os nomes das dedicadas propagandistas da instrução e das reivindicações feministas a professora D. Maria Evelina de Sousa e a poetisa D. Alice Moderno.”


A saudação não só foi aprovada como o presidente da mesa, Bernardino Machado, que foi presidente da República Portuguesa por duas vezes, de 6 de agosto de 1915 a 5 de dezembro de 1917 e de 1925 até ser destituído pelo golpe militar de 26 de maio de 1926, a propósito da mesma, afirmado o seguinte:

“Associo-me com todo o prazer ao aditamento apresentado pela ilustre congressista Srª D. Judith Rocha, saudando as Sras. D. Alice Moderno e D. Maria Evelina de Sousa.”

Teófilo Braga
Pico da Pedra, 20 de novembro de 2018

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Maria da Conceição Vilhena

Alice Moderno


Maria da Conceição Vilhena

No passado mês de agosto visitei, em Lisboa, um alfarrabista e vi à venda o livro “Uma mulher pioneira-Ideias, Intervenção e Ação de Alice Moderno”, da autoria de Maria da Conceição Vilhena. Embora já possuísse um exemplar, comprei-o de imediato, pois trata-se de uma raridade publicada pelas Edições Salamandra. Outra marca que encontrei no livro que o torna ainda mais singular é uma dedicatória da autora “À Delegação da ASSP, em Lisboa”, bem como um carimbo daquela instituição.

Não me vou alongar com suposições acerca do que terá ocorrido para que o livro estivesse à venda, vou sim dar a conhecer um pouco a mulher que tirou Alice Moderno do esquecimento através dos artigos e livros que escreveu sobre a mesma, Maria da Conceição Vilhena.

Maria da Conceição Vilhena que nasceu em 1927 em Santiago do Cacém, depois de ter frequentado a escola primária na sua terra natal, concluiu o Magistério Primário, em 1948, em Évora, licenciou-se em Filologia Românica, em 1965, na Faculdade de Letras de Lisboa e, em 1975, doutorou-se pela Universidade da Sorbonne.

Foi professora em várias universidades, entre as quais a dos Açores, e é autora de inúmeros trabalhos sobre linguística, literatura, etnografia e história, entre os quais vários artigos e três livros sobre Alice Moderno, como o já citado, “Alice Moderno: a mulher e a Obra” e “Joaquim de Araújo Diálogo Epistolar com Alice Moderno”.

Sobre a sua relação com os animais, Maria da Conceição Vilhena confessou ao jornal Açoriano Oriental, em 1988, que defendia uma posição idêntica à de Alice Moderno que considerava que “o animal é necessário na vida do homem, que o deve utilizar, mas não sentir prazer em o maltratar, já que o animal vive sem o homem e o homem não consegue viver sem o animal”.

Na mesma reportagem, Maria da Conceição Vilhena recordou que “para Alice Moderno os animais eram nossos irmãos inferiores” e que havia necessidade de “chamar a atenção das populações para os direitos dos animais”.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31374, 7 de novembro de 2017, p.16)

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

11 de agosto de 2017 – Alice Moderno Presente


11 de agosto de 2017 – Alice Moderno Presente

“Caridade não é apenas a que se exerce de homem para homem: é a que abrange todos os seres da Criação, visto que a sua qualidade de inferiores não lhes tira o direito aos mesmos sentimentos de piedade e de justiça que prodigalizamos aos nossos semelhantes” (Alice Moderno)
Açoriana pelo coração, Alice Moderno nasceu em Paris, a 11 de agosto de 1867, e viveu primeiro na Terceira e depois em São Miguel, onde faleceu a 20 de fevereiro de 1946.
Para além da sua atividade de jornalista, escritora, agricultora e comerciante, Alice Moderno foi uma mulher que pugnou pelos seus ideais republicanos e feministas, sendo uma defensora da natureza e amiga dos animais.
Cento e cinquenta anos depois do seu nascimento não esquecemos a sua luta que ainda hoje faz todo o sentido e não foi em vão, pois a sua obra ainda hoje é reconhecida e o seu labor serve de inspiração a quem hoje continua a trabalhar para uns Açores melhores para todos.
Não esquecemos a sua desilusão face às promessas não cumpridas pelos republicanos na Primeira República, não esquecemos que não se iludiu com a ditadura do Estado Novo e não podemos ignorar a hipocrisia dos políticos surgidos após o 25 de abril de 1974 que lhe concederam, em 2014, a título póstumo, a insígnia autonómica de mérito cívico mas que não respeitaram o definido no seu testamento. Com efeito, no dia 31 de janeiro de 1946, vinte dias antes de falecer Alice Moderno, em testamento, deixou alguns bens, à Junta Geral Autónoma do Distrito de Ponta Delgada, com a condição desta, no prazo de dois anos, criar um hospital para animais.
O Estado Novo embora não tenha cumprido na íntegra as aspirações de Alice Moderno, construiu as instalações e garantiu, nos primeiros tempos, sob a administração da Sociedade Micaelense Protetora dos Animais e com a colaboração da Junta Geral, a enfermagem permanente aos pequenos animais e a consulta diária a animais de todas as espécies, através do veterinário municipal de Ponta Delgada.
A “democracia” acabou com tudo. Ainda dizem que o Estado é pessoa de bem!
Pico da Pedra, 11 de agosto de 2017
Teófilo Braga

segunda-feira, 17 de abril de 2017

A Terceira Morte



A terceira morte de Alice Moderno

Se é verdade que ninguém sozinho consegue alterar seja o que for, também é verdade que há pessoas que pelo seu empenho e capacidade de liderança são capazes fazer com que outros se motivem para agir em prol de ideais sejam eles quais forem.

Alice Moderno foi uma das pessoas que, para além de apoiar os seus semelhantes mais desfavorecidos, dedicou grande parte da sua vida à causa animal, através da sua dedicação à Sociedade Micaelense Protetora dos Animais, de que foi uma das fundadoras e sua presidente durante décadas.

A professora doutora Conceição Vilhena, aquando do incêndio que deflagrou na Universidade dos Açores, em 1989, e destruiu o seu espólio, escreveu uma pequena nota, no Correio dos Açores, intitulada “Alice Moderno morreu pela segunda vez”, onde afirmou:

“Alice Moderno morreu hoje, pela segunda vez. Uma grande mulher: forte, inteligente, culta, trabalhadora, bondosa. Que a casa do Gaiato de S. Miguel, comprada com o seu dinheiro, a não esqueça. Que todos aqueles que condenam a crueldade para com os animais, continuem a sua obra a favor dos mais fracos. Que todas as mulheres lhe prestem homenagem, conservando-a bem viva na sua memória.”

A terceira morte de Alice Moderno, esta a ocorrer todos os dias. Hoje a casa do Gaiato, nas Capelas já deu lugar a outro projeto, o Hospital Alice Moderno também já desapareceu e durante muito tempo não serviu para os fins destinados por Alice Moderno no seu testamento, a Assembleia Legislativa Regional depois de lhe prestar homenagem aprovou uma lei que, por um lado reconhece que o abate dos animais nos canis não é o método adequado para o seu controlo mas, por outro lado, adia a entrada em vigor para 2022.

Penso que este prazo dilatado não faz qualquer sentido se as entidades governamentais e as autarquias começassem a trabalhar a sério em campanhas de sensibilização e de esterilização de animais ditos de companhia.

Além disso, uma Região que apregoa ser pioneira na implementação de várias medidas não pode alegar que não é possível acabar com os abates sistemáticos quando a nível nacional aqueles serão proibidos definitivamente a partir de 2018.


Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31208, 18 de abril de 2017, p.17)

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Recordando Alice Moderno

No dia 20 de fevereiro de 1946 faleceu Alice Moderno, feminista e defensora dos animais. Em sua memória divulgamos um texto seu publicado por ocasião do segundo aniversário da proclamação da República.


Jornal "A República, 5 de outubro de 1912)

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Joaquim de Araújo, Alice Moderno e Antero de Quental



Joaquim de Araújo, Alice Moderno e Antero de Quental

Joaquim António Araújo e Castro nasceu, em Penafiel, no dia 16 de julho de 1858 e faleceu na Casa de Saúde do Telhal, em Lisboa, a 11 de maio de 1917.

Joaquim de Araújo foi Cônsul de Portugal em Génova, onde exerceu uma atividade cultural de relevo a nível internacional, tendo divulgado em vários países os maiores escritores portugueses, como o Padre António Vieira, Luís de Camões, João de Deus, Almeida Garrett, Eça de Queirós e Antero de Quental.

Joaquim de Araújo que, de acordo com Xavier Coutinho, foi um “bibliógrafo, bibliófilo e escritor benemérito” esteve de algum modo ligado aos Açores, através de Alice Moderno e de Antero de Quental.

No que diz respeito a Alice Moderno, Joaquim de Araújo manteve com ela correspondência e foi seu noivo, tendo estado na ilha de São Miguel, de outubro a dezembro de 1893.

De acordo com Ana Maria Almeida Martins, foi Joaquim de Araújo que pediu a Luís de Magalhães, o organizador do livro “Antero de Quental- In Memoriam” que incluísse um texto de Alice Moderno, alegando que “ela pertencia à melhor sociedade micaelense, era amiga da família Quental e carteara-se com Antero”, omitindo a principal razão, o seu noivado com aquela.

Com pequenas inexatidões o contributo de Joaquim de Araújo para o referido livro intitulado “Ensaio de Bibliografia Anteriana” foi, segundo Ana Martins, “um extraordinário trabalho de investigação” e um “subsídio indispensável para o estudo da vida e obra de Antero”.

Antero de Quental, desde muito cedo, conviveu com Joaquim de Araújo, tendo, segundo este, sido uma das pessoas que o confortou aquando da morte do pai, como se pode ler numa das cartas dirigidas a Alice Moderno: “Foi ele que me acompanhou na noite da morte de meu Pai, beijando as minhas lágrimas como ninguém as beijará mais.”

Ainda sobre a forte ligação entre os dois, pode ler-se numa carta de Joaquim de Araújo a Teófilo Braga: “…nunca pedi dinheiro emprestado a ninguém senão a Antero, que me emprestou três libras quando eu precisava apenas de duas.”

A notícia da morte de Antero para além de surpreender vários dos seus amigos, deixou alguns deles bastante abalados, como foi o caso de Joaquim de Araújo que em carta a Alice Moderno escreveu:

“Quando Antero morreu, eu fiquei numa exasperação extraordinária. Estava eu num hotel no Porto com o J. Dias Ferreira, nessa ocasião; e deixei-o abruptamente. Lembro-me que assobiava ao sair do hotel. Fui à minha pobre casa, de que te falei já. Eu tive sempre um grande espírito económico. Tinha 15 ou 16 libras. Tomei-as e segui num dos comboios: fui a Braga, a Amarante, a Penafiel, a Guimarães. Como a morte do meu grande amigo chocara em toda a parte, todos me falavam do Augusto suicida. Eu fugia. Cheguei a casa quatro dias depois.”

No seu testamento feito em Itália, datado de 24 de agosto de 1903, Joaquim de Araújo voltou a mostrar a sua ligação a Antero. Assim, entre os legatários figuraram Teófilo Braga e Ana Quental, irmã de Antero de Quental.

A Teófilo Braga, Joaquim de Araújo deixou “seis volumes dos mais preciosos” que possuía, sendo os restantes para a Biblioteca de São Marcos de Veneza, ficando Ana Quental com todos os seus objetos de prata.

Teófilo Soares de Braga
(Correio dos Açores, 31120, 4 de janeiro de 2017, p. 16)

terça-feira, 1 de novembro de 2016

terça-feira, 11 de outubro de 2016

As primeiras associações de Proteção dos Animais



As primeiras associações de Proteção dos Animais


A primeira associação criada em Portugal com o fim de defender da malvadez humana “os pobres seres, zoologicamente a nós inferiores” terá sido criada por “um conjunto de cidadãos portugueses e ingleses”, em Lisboa, no ano de 1875, com a designação de “Sociedade Protetora dos Animais”.

Três anos mais tarde, em 1878, surgiu na cidade do Porto uma associação congénere com a denominação de Sociedade Protetora dos Animais do Porto (SPAP), a qual durante alguns anos foi dirigida por um açoriano.

De acordo com Alice Moderno, a Sociedade Protetora dos Animais do Porto, presidida pelo micaelense Dr. José Nunes da Ponte, em 1913, que realizava um trabalho, “que tanto honra e levanta o nível moral da cidade onde se expande e progride”, devia servir de incentivo e exemplo aos micaelenses que dois anos antes haviam tomado nas suas mãos a criação da Sociedade Micaelense Protetora dos Animais.

No ano referido, a SPAP disponha de uma receita de 1505 escudos, na moeda portuguesa, ou sejam 1881 escudos na moeda insulana, o que lhe permitia “proteger eficazmente os animais, mantendo fontenários, distribuindo prémios, custeando um posto veterinário, tendo empregados remunerados, escritório com telefone, que prontamente comunica com todos os pontos da cidade, etc. etc.”

Nos Açores, embora a ideia da criação de uma associação de proteção dos animais seja mais antiga e as primeiras reuniões tenham ocorrido em 1908, a primeira organização que se formou foi a Sociedade Micaelense Protetora dos Animais (SMPA), com estatutos elaborados tendo por base os da Sociedade Protetora dos Animais, de Lisboa.

Legalizada a SMPA, a 13 de Setembro de 1911, foram seus fundadores: Caetano Moniz de Vasconcelos (governador civil), Alfredo da Câmara, Amâncio Rocha, Augusto da Silva Moreira, Fernando de Alcântara, Francisco Soares Silva, José Inácio de Sousa, Joviano Lopes, Manuel Botelho de Sousa, Manuel Resende Carreiro, Marquês de Jácome Correia, Miguel de Sousa Alvim, Alice Moderno e Maria Evelina de Sousa.
No ano em que foram aprovados os estatutos da SMPA, surgiu na ilha Terceira, com o fim de “proteger dos maus tratos todos os animais não considerados daninhos… e animar o exercício da caridade para com os animais, estabelecendo para isso prémios e recompensas sempre que permitam os recursos da sociedade”, a SPAAH - Sociedade Protetora dos Animais de Angra do Heroísmo.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31052, 11 de outubro de 2016, p.16)