quinta-feira, 18 de abril de 2013
segunda-feira, 18 de março de 2013
Alice Moderno na Enciclopédia Açoriana
Alice Moderno
[N. Paris, 11.8.1867 – m. S. Sebastião, Ponta Delgada, 20.2.1946] No ano em que nasceu, veio com os pais à ilha Terceira, onde ficaria alguns meses antes de regressar a Paris. Em 1876, voltaria àquela ilha e depois, em 1883, fixar-se-ia em Ponta Delgada, sempre acompanhada dos pais. Foi neste último ano que entrou na vida literária com a publicação da poesia Morreu! (Açoriano Oriental, 18.9.1883). Em 1886, publicou o primeiro livro de poemas, Aspirações, e em 1892, publicou o primeiro romance, O Dr. Luís Sandoval. Deixou ainda três peças de teatro e um ensaio.
Fundou os jornais O Recreio das Salas, em 1888, e A Folha, em 1902 que terminaria em 1917. Em 1891, começou a colaborar, ativamente, no jornal Diário de Anúncios de que tomou a direção entre 1892 e 1893.
Em 1910 participou ativamente na vida social como republicana e feminista e, em 1911, fundou a Sociedade Micaelense Protetora dos Animais. Depois da sua morte, em 1948, foi inaugurado o «Hospital Alice Moderno» e, em 1956, com o dinheiro da arrematação dos seus bens foi comprada a Casa do Gaiato.
Foi a primeira aluna a frequentar o Liceu em Ponta Delgada (1887/1888?). Exerceu atividade docente como professora do ensino particular.
Luís M. Arruda
(ENCICLOPÉDIA AÇORIANA)
quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
Maus Tratos aos Animais
O Exmo. Sr. Governador Civil deste distrito, por intermédio do sr. Administrador do concelho, fez publicar um edital suscitando a observância dos artigos 182 e 183 do código administrativo, relativo aos maus tratamentos que a todo o momento vemos dar aos animais domésticos.
De entre todos tem sido este…vez, que mais tem tratado deste assunto, pedindo às autoridades as precisas medidas para coibir os repugnantes abusos que temos visto praticar, e cumpre-nos, em primeiro lugar, lavrar aqui o nosso reconhecimento pela consideração em que foram tomados esses pedidos.
Por mais uma vez louvamos o procedimento da digna autoridade que temos à testa deste distrito, que em todos os seus atos tem mostrado uma firme energia e sentimos que não tenha à sua disposição um corpo de polícia bem organizado e disciplinado, porque muito mais teríamos a esperar da sua boa vontade.
Ao digno intendente de pecuária deste distrito, o nosso amigo sr. José Pedro Jesus Carreiro, cabem, no cumprimento dos artigos acima referidos, atribuições de juiz, sem as quais não se podem punir os transgressores.
Não nos resta a menor dúvida acerca da imparcialidade deste cavalheiro; mas receamos que por falta de polícia não se possa cumprir as salutares disposições da lei.
…muito, sem dúvida, o que se tem feito em benefício da civilização, são grandes as ideias de justiça que animam as autoridades, mas, repetimos, sem um corpo de polícia, todos os seus esforços serão aniquilados.
Quando em tempo se falhou na criação duma sociedade protetora dos animais, alguns cavalheiros dos mais conceituados nesta terra, aceitaram com verdadeiro entusiasmo tal ideia, todavia esmoreceram todos por faltar o primeiro elemento – a polícia.
Cremos, que em seguida ao estabelecimento deste corpo, reviverá o projeto da existência da sociedade e que em breve a veremos constituída e auxiliando a polícia na sua cruzada civilizadora.
(Diário de Anúncios, nº 2239, 1 de Agosto de 1892)
domingo, 30 de dezembro de 2012
Proteção aos Animais
Para a morigeração dos nossos costumes, uma grande medida é preciso tomar desde já.
Coibir os maus tratos aos animais, que a cada passo se presenceiam pelas ruas desta cidade.
Praticam-se verdadeiros abusos.
Carregam-se demasiadamente os veículos; espancam-se brutalmente os animais; presenciam-se toda as casta de barbaridades e não se levanta um braço que obste tudo isso.
Animais mortos de fome, tirando carros com pesos superiores às suas forças, outros trazendo sobre dolorosas chagas, grossas e ásperas correias!
Depois, agrava-se este abuso com o emprego de carneiros e cães tirando pequenas carroças de mão!
Não se pode nem se deve consentir isto.
Não se pode: porque aos nossos sentimentos humanitários e de educação repugna assistir a estes espetáculos; não se deve porque estamos prejudicando a instrução das crianças, ensinando-lhes atos de malvadez.
E como se acaba isto?
Reprimindo estes abusos à força do emprego de todos os meios.
Se o primeiro carroceiro que espancasse o animal; o que fosse encontrado conduzindo no veículo peso superior ao que devia, e o que empregasse no serviço de tiro animais cujas aptidões não servem para tal, e só perturbam o trânsito dando uma triste ideia do que somos:-havia haver respeito pela lei.
Porque na lei nós temos elementos para acabar com isto.
Em tempos pensou-se em fundar aqui uma “Sociedade Protetora dos Animais” delegada da de Lisboa, mas os mais entusiásticos esmoreceram e não chegou a realizar-se, uma das causas que motivou também isto, foi não se ver aqui um corpo de polícia que coadjuvasse os esforços dos membros da sociedade.
Mas a imprensa micaelense, honra lhe seja, tem sempre advogado a necessidade de proteger os animais.
É tempo, pois, dela ser ouvida.
Não se pode calcular o mal que faz à educação da mocidade, estas brutais cenas que aí vemos a cada passo.
Esperamos que os nossos colegas nos acompanharão nesta cruzada.
Havemos pedir, pedir muito, até que alguém nos ouça e dê deferimento às nossas reclamações a favor da civilização.
Noutro lugar desta folha publicamos uma nota de lei para a qual chamamos a atenção da autoridade administrativa.
(Diário de Anúncios, nº 2226, 16 de Julho de 1892)
Nota- Embora não assinado supomos que o texto é de Alice Moderno que esteve ligada ao referido jornal naquela data.
segunda-feira, 24 de dezembro de 2012
Envenenamento de um cão
O distinto poeta Bulhão Pato visitou frequentemente os Açores, demorando-se às vezes meses em São Miguel e na Terceira. Foi muitas vezes, em Vila Franca hóspede do seu grande amigo Sebastião do Canto.
Dedicado à espécie canina, causa emoção uma poesia elegíaca inspirada pela morte de uma linda perdigueira, sua fiel companheira das caçadas.
Dotado, como quase todos os poetas, de rara sensibilidade, Bulhão Pato sentiria certamente desgosto se soubesse que a Vila Franca das Flores se notabilizava pela guerra feita ao mais fiel amigo do homem, o pobre cão.
Mais de uma vez, naturais da Vila, e citarei como exemplo o ilustre vila-franquense sr. Dr. Urbano Mendonça Dias, têm chamado a minha comovida atenção para o lamentável espetáculo que oferecem, expostos nas ruas, cadáveres de cães a que foi propinada estricnina por mão incógnita e impiedosa.
Ultimamente deu-se mais um destes casos: um continental saiu da vila abandonando o um pobre cão que possuía.
Uma gentil criança, filha do sr. Manuel Cabral de Melo, residente na rua da Vitória, tomou o desamparado quadrúpede sob a sua proteção, e todos os dias lhe fornecia um repasto que lhe garantia a existência.
Pessoa de mau coração - parece que moradora na mesma rua e muito embora o infeliz animal fosse absolutamente inofensivo, entendeu eliminá-lo da circulação envenenando-o cruelmente com grande mágoa do seu jovem protetor, cujo excelente coração é digno de maiores elogios.
Felizmente, parece que semelhantes casos não se repetirão por muito tempo visto que no continente da República há quem esteja eficazmente ocupando dos direitos dos irracionais e do dever que assiste ao Estado de os proteger.
Em breve tratarei deste momentoso assunto e para o ilustre zoófilo que no mesmo se empenha vão desde já os meus mais sinceros e comovidos aplausos.
Alice Moderno
(Diário dos Açores, nº 20026, 26 de Julho de 1945)
sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
PELOS ANIMAIS
A imprensa local mercê de alguns espíritos generosos, recomeça a sua campanha a favor dos pobres animais, que nenhuma lei protege, e se encontram à mercê de todas as brutalidades, vitimas imbeles de um destino atroz.
Não há muito tempo noticiava o Diário dos Açores que ao animal encarregado do tiro de uma carroça de beterraba sacarina para a fábrica de Santa Clara esvaziara o condutor um olho, e, todavia, ninguém tratou de apurar o número da carroça, a fim de que o bárbaro carroceiro recebesse a recompensa do seu humanitário feito.
A brandura dos nossos costumes reverte nisto: a mais completa crueldade para com aqueles que na frase de um escritor francês nenhuma lei protege…
Para a humanidade desamparada criaram-se os asilos de infância desvalida e mendicidade, há as creches, os albergues noturnos, as cozinhas económicas, os subsídios concelhios e distritais, muitas vezes concedidos sem discernimento e por favoritismo, a esmola, aos sábados, a assistência nacional, etc. etc.
Para os animais, tão bons amigos e tão úteis auxiliares do homem, nada existe, além de umas posturas camarárias que não se cumprem, genericamente falando, além da Sociedade Protetora dos Animais, criada pela imprensa, e que, por falta de um zelador a quem se pague, e de um posto veterinário, pouco pode conseguir além da propaganda, que não tem descurado e constantemente apregoa.
Em São Miguel, terra onde abençoadamente floresce a Caridade, não pode nem podia deixar de existir a Sociedade Protetora dos Animais, que conta bastantes sócios, e à qual o benemérito titular, sr. Marquez de Jácome Correiam, concedeu o subsídio de 100 escudos anuais.
Mas esses recursos materiais não têm sido suficientes para que se pudesse estabelecer um posto veterinário com médico e servente, e menos ainda um hangar, onde os animais doentes recebessem socorros médicos, enfermagem e alimentação.
Daí a crónica trágica do Caldeirão, para onde são atirados os animais considerados inúteis, e ainda o bárbaro e indecoroso espetáculo que dia a dia presenciamos, de animais abandonados na via pública pelos seus descaroáveis donos!
Ora este estado de coisas não pode continuar assim, sob pena de perdermos foros de civilizados. É necessário que de entre tantos que podem dispor do seu tempo não totalmente absorvido pela luta pela vida, alguém que tome a peito a generosíssima cruzada e desça a defender aqueles que nenhuma lei protege contra as brutalidades da ignorância e as alucinações do álcool.
Estabeleça-se um pequeno ordenado a um indivíduo dedicado à causa dos animais e cujo mister consistirá em receber queixas, fornecer esclarecimentos, e zelar o cumprimento das posturas municipais, devendo permanecer na sede em determinadas horas do dia, e tomar nota dos donativos, e da fiscalização a exercer sobre os agentes da autoridade que, segundo se vê, não estão para se ralar, tal é a abundância de animais de tiro chagados, ou zarolhos, e ainda de aves suspensas pelas pernas, que se encontram diariamente nas primeiras horas do dia, nos sítios mais frequentados de Ponta Delgada.
Pela nossa parte não temos descurado o assunto, tendo mesmo frequentemente ligado a prática à teoria nesta cruzada em prol dos nossos irmãos inferiores.
Como, porém, uma boa vontade isolada nada pode fazer, apelamos para o auxílio de todas as pessoas de coração, a quem certamente terá muitas vezes pungido o lamentável espetáculo exibido nas tuas de Ponta Delgada pelos infelizes seres que vimos defendendo, pessoas estas que convidamos a alistar-se nesta cruzada que, sendo de todas a mais desinteressada, é por isso mesmo a mais generosa.
A.M.
(A Folha, nº 668, 5 de Dezembro de 1916)
domingo, 16 de dezembro de 2012
Uma barbárie sem justificação
Referimo-nos não há muitas semanas ao triste espetáculo produzido frequentemente nesta cidade pela rusga aos cães, pobres animais, que nos servem com tanto zelo, quando convenientemente educados e nos amam com tanto carinho, quando tratados com bondade.
Que essas rusgas se realizem nos países em que a hidrofobia, causada muitas vezes pela privação do alimento, pode ser transmitida pelo cão aos outros animais, incluindo o homem, ainda se poderá admitir. Nos Açores, porém, onde a hidrofobia não existe, a guerra de extermínio feita aos cães – como se fossem animais daninhos – não tem nenhuma circunstância atenuante, e representa um ato de crueldade, como tantos outros que se praticam ingratamente em prejuízo do melhor amigo da espécie humana.
Nem só A Folha se insurgiu contra o desumano procedimento praticado para com os infelizes quadrúpedes, pois acaba de se nos deparar no Zoófilo o seguinte artigo, que gostosamente transcrevemos em reforço da nossa doutrina, para a qual chamamos a atenção de todas as almas compassivas e boas.
O artigo é original do sr. Castro Morais, de Caselas, e foi dado à estampa em 12 do p.p. mês de fevereiro:
“Na minha qualidade de sócio contribuinte da antiga Sociedade Protetora dos Animais, entendo que por todos os princípios justos, racionais e morais, devo tornar público que nos princípios do mês findo apareceu nesta povoação da Caselas, uma cadela abandonada, com tanta fome, que metia dó a quem a visse num tal estado de penúria e abandono!...
Era tanta a fome que as famílias deste povo – todo ele honesto, digno e trabalhador, - todas, com poucas exceções, lhe davam agasalho e as migalhas das suas parcas mesas, pelo que o pobre animal, como sinal de gratidão, a todos demonstrava o seu reconhecimento e afeição.
Vejamos agora qual foi o fim do pobre animal.
Dando eu por falta da cadela nesta povoação, e sentindo um triste pressentimento, procedi a várias investigações, que deram em resultado vir a saber da boca de um rapazinho dos seus 10 anos, de nome João, por alcunha “O ferro velho”, que passando pelo sítio da “Marinheiras”, pouco distante daqui, a “carroça dos cães”, guiada por “dois homens mal-encarados” esses sujeitos meteram o pobre animal dentro da … “inquisitorial carroça”, em companhia doutros mais que já tinham apanhado na sua passagem, indo logo para o “Instituto Bacteriológico” em busca da estricnina que lhes devia dar a morte!
Ao entrar para aquele “sinistro carro”, segundo me disseram algumas testemunhas que viram aquele triste espetáculo, a pobre e desventurada cadela olhando para os circunstantes, parecia querer significar-lhes, por gestos tristes e magoados, a sua despedida, bem lembrada e saudosa pelo belo acolhimento que aqui lhe havia dado o bondíssimo povo desta aldeia.
Em vista deste triste espetáculo, conservarei enquanto vivo for, na minha lembrança, as racionalíssimas palavras do imortal Genovense: “Quanto mais conheço os homens, mais amigo sou dos animais…”
O que se passou sugere-me estas considerações: A polícia enverga uma farda, a qual se acaso não laboro em equívoco, deve ser uma insígnia de honra e valor e, como tal, deve assentar no costado de homens dignos e ajuizados, porque a polícia deve ser um elemento de ordem e de ponderação, e assim, somente deve servir os cidadãos honestos e pacíficos; coibir desmandos e desordeiros, fazendo respeitar a Lei e o princípio da autoridade. A polícia, finalmente, deve ser uma coletividade cheia de cultura e aperfeiçoamento moral, a fim de saber e poder impor-se ao respeito dos elementos confusos e heterogéneos que de vez em quando possam surgir pela sua frente, como nota discordante entre a parte boa e sensata.
Em tais condições a polícia, a meu ver, não deve servir para condutora auxiliar das “carroças de cães”, nem tão pouco para quejandos serviços menos próprios da farda que veste.
Para tais serviços, as Câmaras que criem lugares de zeladores, nomeando para eles indivíduos da sua confiança, e nunca entregando tais serviços à polícia da cidade.
E, demais, as Câmaras Municipais que tenham dias próprios, durante o ano, para os seus varejos, em conformidade com o preceituado na lei geral.
E se o contrário do que eu aqui digo existir por acaso nos códigos de posturas municipais, nesse caso, é mister que tais códigos sejam remodelados quanto antes, por antiquados e vexatórios. Nós não estamos nos tempos das antigas Ordenações, que morreram há muito tempo sem nos terem deixado nenhumas saudades …Bem poucos têm sido os jornais desta capital, que se não referissem com amargura à caça e mortandade canina a que a polícia se tem dedicado com um zelo que melhor empregado seria em livrar a cidade da gatunagem que a infesta.
É necessário que a nossa Associação proteste contra estes escândalos, que estão clamando contra as suas origens, venham elas donde vierem, partam donde partirem…”
(A Folha, nº 629, 7 de Março de 1915)
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