quarta-feira, 29 de junho de 2016
ALICE MODERNO E A EDUCAÇÃO - 1
ALICE MODERNO E A EDUCAÇÃO - 1
“A verdade é que somos todos iguais. Iguais no nascimento, pelo sofrimento, e perante a morte. O que desnivela os homens é unicamente, mas cumpre dizê-lo inexoravelmente, a diferença de educações. Instruí-vos, educai-vos, e colocar-vos-eis a par dos primeiros entre os vossos semelhantes.”
Sendo o pai de Alice Moderno uma pessoa instável que nunca parava num local, decide, em 1987, sair de Ponta Delgada, primeiro para a Achada de Nordeste, depois para os Fenais da Ajuda e mais tarde para a Lagoa. Alice Moderno, que não se entendia com o pai, decide ficar em Ponta Delgada e para subsistir dá explicações
Segundo a Professora Maria da Conceição Vilhena, a atividade docente, nos primeiros anos, ocupava os dias de Alice Moderno, trabalhando esta de 8 a 14 horas diárias. A docência foi exercida por Alice Moderno durante muitos anos, tendo mais tarde sido substituída por outras, como o comércio, a tipografia, os seguros, etc.
Em 1892, Alice Moderno era um dos oito professores de instrução secundária inscritos na matriz da contribuição industrial de Ponta Delgada.
Em 1907, Alice Moderno dava explicações na Rua do Castilho nº1 como prova o seguinte anúncio publicado a 17 de fevereiro no jornal A Folha: “Alice Moderno leciona instrução primária e línguas portuguesa e francesa”. Sabe-se que também lecionou geografia.
Alice Moderno, para além de professora particular, foi nomeada regente da Escola Móvel de Ponta Delgada, tendo, no dia 15 de outubro de 1913, proferido a alocução inaugural. No seu discurso Alice Moderno elogiou o regime republicano por “procurar extinguir, no feracíssimo solo lusitano, as flores nefastas da ignorância e da superstição” que infelizmente continuam a proliferar nos nossos dias”.
Na ocasião, o jornal República denunciou várias irregularidades no funcionamento das escolas móveis, sendo uma delas o facto de alguns professores das mesmas não terem habilitações.
As escolas móveis que foram criadas pela República para combater o analfabetismo foram contestadas porque limitaram as aprendizagens à alfabetização e porque, segundo António da Nóvoa, davam prioridade nas contratações dos professores aos “amigos republicanos”.
Contra as escolas móveis ergueram a sua voz, a nível nacional, alguns pedagogos portugueses como Álvaro Viena de Lemos (1881-1972), divulgador em Portugal da obra do pedagogo francês Freinet, que escreveu o seguinte: “Vem o Estado republicano. Cria também umas escolas móveis. Mas sob o pretexto, que facilmente colhe na ocasião, da necessidade da propaganda republicana e defesa das instituições, a nomeação dos respetivos professores faz-se, com raras exceções, entre os compadres e bons republicanos com melhores serviços revolucionários”.
Por cá, Alice Moderno, no jornal A Folha, de 26 de outubro de 1913, desmontou as várias acusações de que era alvo nos seguintes termos:”…na parte que me diz respeito uma completa falsidade, atendendo a que sou professora diplomada e me encontro inscrita no Liceu de Ponta Delgada como professora de ensino secundário, existindo na secretaria do mesmo estabelecimento de instrução, numerosos documentos comprovativos não só das minhas habilitações oficiais, mas ainda do trabalho produzido como professora de instrução primária (admissão ao curso dos liceus) e materiais de ensino secundário, na qualidade de professora do mesmo ensino”.
Na próxima semana voltarei ao assunto.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30971, 29 de junho de 2016, p.18)
segunda-feira, 4 de abril de 2016
Luís Leitão
Luís Leitão e o Correio dos Açores
Desde sempre o jornal Correio dos Açores teve entre os seus colaboradores pessoas que deram o seu contributo à causa da proteção dos animais.
De entre os colaboradores, de que se destacou Alice Moderno, um deles foi Luís Leitão que também colaborou com aquela no jornal “A Folha” e com Maria Evelina de Sousa, na “Revista Pedagógica”, no “Autonómico”, de Vila Franca do Campo e no “Correio Micaelense”.
Luís Albino da Silva Leitão (1866-1940) foi um escritor e jornalista que colaborou com centenas de jornais e revistas em todo o território nacional e no Brasil, tendo dirigido a “Revista do Bem”.
De entre os temas que mais abordava destacam-se a luta contra a guerra, o alcoolismo, o tabagismo e a caça e a defesa dos direitos da criança, dos animais e do vegetarianismo, tendo nesse sentido colaborado com a revista “O Vegetariano”, órgão da Sociedade Vegetariana de Portugal.
No que diz respeito à defesa dos animais Luís Leitão foi membro da direção da Sociedade Protetora dos Animais de Lisboa e sócio benemérito de várias outras.
Através das pesquisas efetuadas até ao momento no Correio dos Açores, apenas temos conhecimento de um texto da sua autoria intitulado Sagacidade Canina, publicado em outubro de 1934.
Numa nota da responsabilidade da redação do jornal, Luís Leitão é apresentado como “o autor cuja obra tão volumosa quanto notável, representa uma verdadeira cruzada em prol dos animais, tem sido por diferentes vezes galardoado pelo seu aturado esforço em favor do aperfeiçoamento moral da raça”.
No seu texto, Luís Leitão faz a referência a dois cães, um que salvou o seu dono de ser assassinado e o outro que denunciou o matador do seu dono.
Sobre o segundo caso podemos ler o seguinte:
“Viajando Pirro, que foi rei do Epiro, encontrou um dia certo cão faminto junto ao cadáver do dono.
Acariciou-o, fez enterrar o morto, e ordenou por último que se levasse o animal para o palácio, onde o sustentariam. Um dia, passando o monarca revista às suas tropas, o cão, que parecia dormitar, lançou-se a um soldado que pretendeu morder. O monarca, admirado, mandou abrir um inquérito e verificou-se que o soldado fora o assassino do antigo dono do animal.”
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30902, 5 de abril de 2016, p.11)
quarta-feira, 30 de março de 2016
Alice Moderno e a Festa da Árvore
Alice Moderno e Festa da Árvore em 1914
Em texto anterior recordei o início das comemorações da Festa da Árvore em Portugal, em 1907, por iniciativa da Liga Nacional da Instrução, e divulguei o contributo da professora primária Maria Evelina de Sousa para a Festa da Árvore realizada na Escola de São José, em 1923, em Ponta Delgada.
Em 1914, em Ponta Delgada, as comemorações da Festa da Árvore contaram com o envolvimento das autoridades locais, como o governador civil que se interessou pela mesma, tendo nelas participado ativamente e a comissão administrativa de Ponta Delgada que as custeou.
Do programa das comemorações, constou uma reunião no palácio do Governador Civil, onde depois do discurso do governador, Dr. João Francisco de Sousa, houve uma preleção pelo Dr. Júlio Soromenho Romão dirigida às crianças sobre o significado da festa.
A seguir realizou-se um cortejo cívico por várias ruas de Ponta Delgada, onde foram plantadas árvores por alunos de várias escolas.
Para ficarmos com uma ideia da dimensão que terá tido o cortejo, a seguir indica-se algumas das entidades participantes: um piquete dos bombeiros voluntários, escolas do sexo feminino de São Roque, Arrifes, Relva, Fajã de Baixo, Fajã de Cima, Bom Despacho, duas escolas do sexo feminino da associação “O Século XX”, escolas do sexo masculino de São José, de São Roque, Fajã de Baixo, Arrifes, escola da Associação das Filhas de Maria, colégio Antero de Quental, colégio Lomelino, colégio Insulano, Escola Minerva, Colégio Manuel José de Medeiros, Escola Móvel, Escola de Desenho Industrial, Academia da Federação Operária, Associação dos Empregados do Comércio e Industrias, Filarmónica Lira de São Roque, Filarmónica Lira do Oriente, da Fajã de Baixo, Filarmónica Lira da Oliveira, da Fajã de Cima, Filarmónica Rival Outeirense, dos Arrifes, Filarmónica Rival das Musas e Filarmónica Lira Açoreana
Na Vila da Lagoa, a Festa constou de uma concentração das escolas da vila e das freguesias no Jardim da Câmara, seguida de cortejo cívico, plantação de uma árvore e discurso do professor José Furtado Leite, da escola masculina do Rosário
Alice Moderno para além de noticiar estas iniciativas e publicar uma reportagem no seu jornal “A Folha”, escreveu um texto intitulado “A Festa de Hoje”, que dedicou ao governador civil, Dr. João Francisco de Sousa, publicado no referido jornal, no dia 15 de março.
Depois de mencionar que a Festa da Árvore é celebrada em diversos países, Alice Moderno escreve que a mesma “tem muito principalmente razão de ser nos essencialmente agrícolas, como este, cujo solo privilegiado dá asilo a uma das floras mais completas de toda a Europa” e acrescenta “seja em que campo for que a exploremos, a terra portuguesa produz sempre, recompensa sempre ao agricultor os afetos com que a cultiva, enriquece e ornamenta”.
Sobre as virtudes da árvore, Alice Moderno apresenta um vasto conjunto de exemplos de que destacamos as seguintes:
“A árvore é a essência medicamentosa que fornecerá o alívio aos tormentosos males que cruciam a precária humanidade.
A árvore é a confidente discreta dos namorados e a desvelada protetora dos pássaros – esses poetas do ar.
A árvore é a maior riqueza da gleba, o maior tesouro dos campos e o maior encanto da paisagem!
A árvore é um dos fatores primos de várias indústrias, é o sustento da lareira, é o calor no inverno, como é a frescura no verão.
…
A árvore é a regularizadora da saúde, a mantedora da higiene, a fertilizadora dos campos, a amiga máxima do lavrador.
…
E quantas vezes é a árvore, o arbusto, a planta, a terra, enfim a alma mater, a amante fidelíssima, o refúgio supremo, a suprema consolação?!”
Palavras que ainda hoje não perderam a atualidade.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30897, 30 de março de 2016, p.13)
segunda-feira, 7 de março de 2016
Relheiras e animais de tiro
Relheiras e animais de tiro
A Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores aprovou, em 29 de outubro de 2015, uma resolução apresentada pelo Grupo Parlamentar do CDS-PP que recomenda que o Governo Regional dos Açores inventarie as relheiras existentes na Região, que considere a sua promoção como elemento turístico e que elabore, no prazo de 200 dias, um relatório que inclua, entre outros itens, uma inventariação e um plano de proteção.
As relheiras, que são sulcos escavados pelas rodas dos carros de bois na rocha vulcânica, existem em várias ilhas. Na ilha de São Miguel há nos Fenais da Luz e são o testemunho do trabalho árduo dos nossos antepassados e do esforço, muitas vezes não compensado ou reconhecido, dos animais de tiro que foram grandes auxiliares do homem até ao aparecimento dos veículos motorizados.
Quem fizer uma leitura dos jornais até à década de 70 do século passado verá que as denúncias sobre maus tratos aos animais eram relativos aos animais de companhia, sobretudo cães que eram abandonados, e aos animais de tiro, com destaque para os bois que percorriam grandes distâncias, como, por exemplo, entre a Maia e a fábrica do açúcar em Ponta Delgada no transporte de beterraba e que não só não eram bem alimentados como eram vítimas das aguilhadas.
Mas, não se pense que os maus tratos a que eram sujeitos os bois se devia apenas à ganância ou ignorância dos seus donos, pois maus exemplos eram também dados pela Câmara Municipal de Ponta Delgada. Com efeito, em 1925, o “lastimoso estado de magreza” dos bois camarários era tal que o Correio dos Açores publicou o seguinte apelo dirigido à Sociedade Micaelense Protetora dos Animais:
“O estado esquelético em que os pobres bois municipais quotidianamente andam pelas encovadas ruas desta cidade, puxando carroças de lixo, não é um motivo de compaixão.
Indagando a causa de tanta magreza, viemos a saber factos espantosos que se dão com a alimentação destes animais. Como, porém, somos suspeitos ante as pessoas que devem fiscalizar estes serviços, chamamos, humanamente, a atenção da Sociedade Micaelense Protetora dos Animais para este caso que também envergonha o nosso meio social”.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30879, 8 de março de 2016, p.11)
quarta-feira, 2 de março de 2016
A Festa da Árvore em 1923
A Festa da Árvore em 1923
“Plantar árvores é não só amar a natureza. Mas ainda ser previdente quanto ao futuro, e generoso para com as gerações vindouras. Cortá-las ou arrancá-las a esmo, sem um motivo justo, é praticar um acto de selvajaria” (Alice Moderno, A Folha, 16/2/1913).
Através da leitura do discurso, do Dr. Jacinto Gusmão de Vasconcelos Franco, proferido na Festa da Árvore realizada na Escola Normal Primária de Ponta Delgada, publicado no jornal Correio dos Açores, no dia 20 de maio de 1923, tomei conhecimento de que a primeira festa da árvore ocorreu em Portugal, na primeira quinzena de março de 1908, por iniciativa da Liga da Instrução Pública.
Através de pesquisas efetuadas cheguei à conclusão de que o nome correto da organização promotora da Festa da Árvore foi a LNI-Liga Nacional da Instrução, instituição fundada em maio de 1906, por proposta de Trindade Coelho, que tinha como objetivos, segundo Sara Pereira, a promoção da educação nacional, e em particular da escola primária, o combate ao analfabetismo e a promoção da educação cívica, através da divulgação da Festa da Árvore.
De acordo com Sara Pereira e Inês Queirós, a primeira Festa da Árvore, iniciativa da LNI não se realizou em 1908 mas sim a 26 de maio de 1907, no Seixal. Depois, foi o jornal O Século Agrícola a impulsionar as Festas da Árvore realizadas entre 1912 e 1915.
A Festa da Árvore realizada, em 1923, em Ponta Delgada, deve a sua existência, segundo uma nota publicada no Correio dos Açores de 3 de maio de 1923, a uma portaria governamental que estabeleceu “que se realizasse em todos os estabelecimentos de ensino do país a Festa da Árvore, dentro do mês de abril, em dia escolhido pelas direções dos referidos estabelecimentos”.
Na festa realizada naquele ano na escola oficial de São José, depois de um discurso proferido pela professora Maria Evelina de Sousa, os alunos recitaram poesias e em seguida dirigiram-se à Praça 5 de outubro onde “brincaram alegremente em volta das árvores que ensombram aquele aprazível local”.
Maria Evelina de Sousa, militante republicana convicta, depois de elogiar o facto da realização da festa se dever ao “carinho generoso” que merece a educação popular por parte do “Governo da nossa Pátria”, passou a enumerar alguns benefícios das árvores para a Humanidade.
Segundo ela, há os seguintes benefícios “utilitários”:
“Purificadoras da atmosfera, dando aos animais o oxigénio de que necessitam os seus pulmões, absorvem ainda o carbono que tão prejudicial é à espécie humana.
São elas, as boas árvores, que defendem os povoados das avalanches produzidas pela acumulação da neve e dos gelos; são elas que diminuem e quebram a velocidade dos ventos e a impetuosidade dos ciclones; são elas que distribuem e atraem as águas tão úteis à agricultura; elas ainda que obstam à invasão das dunas e constituem os mais primitivos para-raios”.
Maria Evelina de Sousa não se ficou por estes papéis “utilitários”, também referiu no seu discurso à sua beleza, tendo mencionado que não se pode ignorar o facto de as árvores constituírem um dos maiores encantos da Natureza.
Passados tantos anos, tantas comemorações do Dia da Floresta, tantas aulas de ciências da natureza e de biologia, tantas sessões de plantação de árvores nas escolas e não só, não se percebe por que razão continua a árvore a ser tão maltratada, quer pelo cidadão comum, quer por responsáveis autárquicos ou governamentais.
Será que nos Açores, tal como acontece com outras maleitas, há muita gente a sofrer de dendrofobia?
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30874, 2 de março de 2016, p. 13)
terça-feira, 16 de fevereiro de 2016
Ana Augusta de Castilho uma açoriana esquecida na sua terra
Fonte: http://silenciosememorias.blogspot.pt/2015/08/1058-ana-augusta-de-castilho-iii.html
Ana Augusta de Castilho uma açoriana esquecida na sua terra
Ana Augusta de Castilho (1866-1916), natural de Angra do Heroísmo, foi escritora, militante republicana e ativista da causa feminista.
Ana Augusta de Castilho foi membro e ativista da mais importante organização feminista das duas primeiras décadas do século XX, a LRMP-Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, associação fundada em 1908.
Na LRMP que, segundo Ana Pires, tinha como temas norteadores “o voto, o direito à instrução, ao trabalho e à administração dos bens, o combate à prostituição e à mendicidade infantil”, Ana Castilho foi membro da sua direção, tendo sido vice- presidente, em 1912, e tesoureira, em 1913 e 1914 e integrou a Mesa da Assembleia Geral, em 1916. Também escreveu periodicamente no órgão da LRMP, o jornal “A Madrugada”, que foi publicado entre 1911 e 1918, sendo dirigido, nos primeiros seis anos por Maria Veleda e que teve como colaboradora a açoriana Alice Moderno.
Ana Castilho desempenhou também um papel de relevo na Obra Maternal, instituição criada em 1909 que, segundo João Esteves, tinha como objetivo principal o combate à mendicidade infantil, recolhendo e alimentando as crianças das ruas e educando-as até serem reintegradas na sociedade, “dotadas de capacidade para exercerem uma profissão”. Na Obra Maternal, Ana Castilho foi sua presidente em 1914 e 1915.
Para além do mencionado Ana Augusta Castilho faz parte do Grupo das Treze, “criado com a finalidade de combater a ignorância e todas as formas de superstição que afetavam a mulher portuguesa”, foi uma das integrantes da Comissão Feminina “Pela Pátria”, pertenceu aos órgãos sociais da Associação de Propaganda Feminista, tendo sido redatora do seu jornal “A Semeadora” e foi uma das acionistas da “Empresa de Propaganda Feminista e Defesa dos Direitos da Mulher.
Ana Augusta de Castilho foi uma das participantes na homenagem feita, a 15 de Agosto de 1912, pela LRMP, às açorianas republicanas e feministas Alice Moderno e Maria Evelina de Sousa.
O seu falecimento, em Dezembro de 1916, foi amplamente noticiado não só em Portugal como na imprensa feminista espanhola. Entre nós, o jornal “A Folha”, através de textos de Alice Moderno e de Maria Evelina de Sousa, dedicou-lhe a primeira página do número 670, publicado a 10 de janeiro de 1917.
No jornal referido, sobre Ana Castilho, Alice Moderno escreveu:
“O seu ideal supremo, a emancipação da mulher pelo trabalho, a reivindicação dos seus direitos pela justiça, apaixonou-a até ao leito em que a doença a prostrou por fim e onde a foi surpreender a morte, arrebatando-a ao fraternal convívio dos que a amavam como uma das mais dignas e respeitáveis do sexo e da classe!”
Por seu lado, no mesmo jornal, Maria Evelina de Sousa que figurava como secretária de redação, referiu-se a Ana Castilho nos seguintes termos:
“E assim a limitadíssima e restrita fileira das defensoras do Feminismo em Portugal acaba de sofrer um terrível golpe com a morte de Ana Castilho…a ilustre extinta era uma das mais entusiásticas, das mais convictas e das mais intemeratas propagandistas do Ideal santo da emancipação da mulher”.
“Vestem de luto as associações feministas de Portugal, e de pesar choram as suas camaradas, que bem avaliam a falta que aos trabalhos de propaganda feminista faz o desaparecimento de Ana Castilho, senhora de sublimes virtudes cívicas, mercê da sua inteligência vigorosa, da sua notável ilustração e do seu nobilíssimo carácter”.
O seu nome figura quer no Dicionário de Educadores Portugueses (2003) quer no Dicionário no Feminino (2005), principais fontes usadas na elaboração do presente texto, mas não consta da Enciclopédia Açoriana (http://www.culturacores.azores.gov.pt/ea/Default.aspx), “projeto do Governo dos Açores, financiado através da Direção Regional da Cultura e executado pelo Centro de Estudos de Povos e Culturas de Expressão Portuguesa da Universidade Católica”.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30862,17 de fevereiro de 2016 p.14)
Ana Augusta de Castilho uma açoriana esquecida na sua terra
Ana Augusta de Castilho (1866-1916), natural de Angra do Heroísmo, foi escritora, militante republicana e ativista da causa feminista.
Ana Augusta de Castilho foi membro e ativista da mais importante organização feminista das duas primeiras décadas do século XX, a LRMP-Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, associação fundada em 1908.
Na LRMP que, segundo Ana Pires, tinha como temas norteadores “o voto, o direito à instrução, ao trabalho e à administração dos bens, o combate à prostituição e à mendicidade infantil”, Ana Castilho foi membro da sua direção, tendo sido vice- presidente, em 1912, e tesoureira, em 1913 e 1914 e integrou a Mesa da Assembleia Geral, em 1916. Também escreveu periodicamente no órgão da LRMP, o jornal “A Madrugada”, que foi publicado entre 1911 e 1918, sendo dirigido, nos primeiros seis anos por Maria Veleda e que teve como colaboradora a açoriana Alice Moderno.
Ana Castilho desempenhou também um papel de relevo na Obra Maternal, instituição criada em 1909 que, segundo João Esteves, tinha como objetivo principal o combate à mendicidade infantil, recolhendo e alimentando as crianças das ruas e educando-as até serem reintegradas na sociedade, “dotadas de capacidade para exercerem uma profissão”. Na Obra Maternal, Ana Castilho foi sua presidente em 1914 e 1915.
Para além do mencionado Ana Augusta Castilho faz parte do Grupo das Treze, “criado com a finalidade de combater a ignorância e todas as formas de superstição que afetavam a mulher portuguesa”, foi uma das integrantes da Comissão Feminina “Pela Pátria”, pertenceu aos órgãos sociais da Associação de Propaganda Feminista, tendo sido redatora do seu jornal “A Semeadora” e foi uma das acionistas da “Empresa de Propaganda Feminista e Defesa dos Direitos da Mulher.
Ana Augusta de Castilho foi uma das participantes na homenagem feita, a 15 de Agosto de 1912, pela LRMP, às açorianas republicanas e feministas Alice Moderno e Maria Evelina de Sousa.
O seu falecimento, em Dezembro de 1916, foi amplamente noticiado não só em Portugal como na imprensa feminista espanhola. Entre nós, o jornal “A Folha”, através de textos de Alice Moderno e de Maria Evelina de Sousa, dedicou-lhe a primeira página do número 670, publicado a 10 de janeiro de 1917.
No jornal referido, sobre Ana Castilho, Alice Moderno escreveu:
“O seu ideal supremo, a emancipação da mulher pelo trabalho, a reivindicação dos seus direitos pela justiça, apaixonou-a até ao leito em que a doença a prostrou por fim e onde a foi surpreender a morte, arrebatando-a ao fraternal convívio dos que a amavam como uma das mais dignas e respeitáveis do sexo e da classe!”
Por seu lado, no mesmo jornal, Maria Evelina de Sousa que figurava como secretária de redação, referiu-se a Ana Castilho nos seguintes termos:
“E assim a limitadíssima e restrita fileira das defensoras do Feminismo em Portugal acaba de sofrer um terrível golpe com a morte de Ana Castilho…a ilustre extinta era uma das mais entusiásticas, das mais convictas e das mais intemeratas propagandistas do Ideal santo da emancipação da mulher”.
“Vestem de luto as associações feministas de Portugal, e de pesar choram as suas camaradas, que bem avaliam a falta que aos trabalhos de propaganda feminista faz o desaparecimento de Ana Castilho, senhora de sublimes virtudes cívicas, mercê da sua inteligência vigorosa, da sua notável ilustração e do seu nobilíssimo carácter”.
O seu nome figura quer no Dicionário de Educadores Portugueses (2003) quer no Dicionário no Feminino (2005), principais fontes usadas na elaboração do presente texto, mas não consta da Enciclopédia Açoriana (http://www.culturacores.azores.gov.pt/ea/Default.aspx), “projeto do Governo dos Açores, financiado através da Direção Regional da Cultura e executado pelo Centro de Estudos de Povos e Culturas de Expressão Portuguesa da Universidade Católica”.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30862,17 de fevereiro de 2016 p.14)
segunda-feira, 18 de janeiro de 2016
O Correio dos Açores e os poetas zoófilos
Notas zoófilas (25)
O Correio dos Açores e os poetas zoófilos
Nas pesquisas que temos vindo a efetuar sobre o tema da proteção dos animais, encontrámos no jornal Correio dos Açores em 1933 e em 1935 uma rubrica intitulada “Poetas Zoófilos” que poderá ter sido coordenada por Alice Moderno.
Entre os poetas que foram selecionados temos Gomes Leal, autor de “O bicho da seda e o verme”, Paulino de Oliveira que escreveu “As olaias e as cigarras”, Espínola de Mendonça autor de “A uma criança que maltratou um cão”, Louis Pergaud que escreveu “Les gardiens”, Luís Cebola, autor de “Dois amigos” e de “Burro velho”, Teixeira de Pacoaes autor de “Buda” e Alice Moderno que escreveu três sonetos com o tema “Fiel companheiro” e outro sobre “A Toutinegra”.
Dos autores referidos dois são açorianos, Espínola de Mendonça, natural de Ponta Delgada, e Alice Moderno, natural de Paris e que viveu primeiro na ilha Terceira e depois em São Miguel.
Termino esta nota transcrevendo o poema de Espínola de Mendonça publicado neste mesmo jornal a 9 de julho de 1933.
A Uma criança que maltrata um cão
Não maltrates o cão. Tem caridade
com o pobre animal.
Ele é tão nosso amigo e, na amizade,
ninguém é mais leal.
Se o malvado lhe inflige algum castigo,
a essa ingratidão
quantas vezes responde o cão amigo,
vindo beijar-lhe a mão!
E essa amizade pela vida fora
é sempre firme, pura.
E os amigos volúveis vão-se embora
nas horas de amargura.
Ele é tão nosso amigo! E a humanidade
nem sempre é como o cão!
Dispensa-lhe carinho, e, por piedade,
Não o maltrates, não.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30836, 19 de janeiro de 2016, p.13)
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