quinta-feira, 30 de abril de 2015
segunda-feira, 27 de abril de 2015
terça-feira, 21 de abril de 2015
Alice Moderno, Maria Evelina de Sousa e a República
Alice Moderno, Maria Evelina de Sousa e a República
Alice Moderno, que nasceu em 1867, teve a oportunidade de viver e assistir à queda da monarquia, saudar o advento da República e “aderir de alma e coração ao partido republicano”, segundo Maria da Conceição Vilhena, e passar os últimos anos da sua vida, primeiro sob a Ditadura Militar e depois sob o Estado Novo.
Até ao momento, não encontramos qualquer informação sobre a participação de Alice Moderno na vida interna de qualquer partido, o que é conhecida é a sua defesa do regime republicano no seu jornal “A Folha”, mesmo após algumas deceções que lhe causaram algumas medidas tomadas pelos republicanos no poder.
Entre Junho de 1918 e Maio de 1925 publicou-se em Ponta Delgada o semanário republicano “A Pátria” que, entre outros, teve como diretores José da Mota Vieira e António Medeiros Franco. De entre os colaboradores do jornal contaram-se Alice Moderno e a sua amiga, a professora Maria Evelina de Sousa, também republicana convicta.
Através dos números do jornal a que tivemos acesso, desde o primeiro até ao publicado a 16 de junho de 1924, concluímos que o contributo de Alice Moderno foi bastante modesto, tendo-se limitado à publicação de dois poemas, “4 de Julho”, no número 6, datado de 11 de julho de 1918 e “Resposta de Roosevelt”, no número 10, datado de 8 de agosto de 1918, que abaixo se transcreve:
Quando foram dizer ao grande ex-presidente
Que o seu filho mais novo, ainda adolescente,
Tenente-aviador do exército da América,
Recebera no front a morte heroica e épica
Que consagra os heróis, no solo o mais sagrado,
Lutando em prol do Ideal, agora espezinhado
Pelo militarismo, a contrapor afeito
O direito da força à força do Direito,
Roosevelt respondeu, com voz que não tremia:
“Minha mulher e eu sentimos alegria
Ao ver que o nosso filho, única e simplesmente,
Cumprindo o seu dever, honrou a pátria ausente!”
Sem comentário algum, dobremos o joelho,
E ó pais de Portugal, vede-vos neste espelho!
Para além do mencionado, Alice Moderno foi autora de uma carta aos diretores do jornal, publicada a 3 de dezembro de 1923 onde considerou deplorável o uso de “carroças puxadas por animais das espécies lanígera e caprina”, o qual contrariava uma postura municipal que nos primeiros tempos foi cumprida para depois cair no esquecimento da própria polícia de Ponta Delgada.
A colaboração de Maria Evelina de Sousa para o jornal “A Pátria” foi maior, tendo para além do poema Aspiração, publicado a 10 de março de 1924, sido autora de vários textos, a maioria dos quais relacionados com a educação/ensino.
Num dos textos, publicado a 19 de novembro de 1923, Maria Evelina de Sousa saúda a decisão das juntas republicanas das paróquias de Lisboa de criar cantinas escolares, fazendo votos para que “o exemplo frutifique e em breve o possamos ver também na cidade de Ponta Delgada”. Como argumento a favor, a autora aponta o facto de o fornecimento de uma refeição diária nas escolas levar a que as famílias matriculem os seus filhos “de melhor vontade”, resultando “uma dupla alimentação: física e intelectual”.
Outro texto interessante é o que foi publicado no número que veio a público a 26 de novembro de 1923, onde Maria Evelina de Sousa sugere a alteração da lei eleitoral para que o voto seja efetivamente livre, propondo que só pudesse “votar quem, sabendo ler e escrever, possua a mais completa liberdade de ação”.
Para acabar com a “força política dos detentores da propriedade, dos donos das terras”, Maria Evelina de Sousa propõe que sejam eliminados dos cadernos eleitorais todos os rendeiros “porque em geral da renda faz parte o voto de que o senhorio dispõe a seu talante, por vezes servindo-se dele para ver se entrava a marcha evolutiva dos princípios liberais”.
Hoje, a situação está profundamente alterada, mas se se eliminassem dos cadernos eleitorais todos os que, mesmo tendo frequentado a escola, não sabem ler ou não são capazes de compreender um texto de três linhas e todos os frequentadores das adulteradas sessões de esclarecimento, cujo principal atrativo é o porco no espeto, talvez as eleições fossem um pouco mais livres.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30612, 22 de abril de 2015, p.14)
Foto: http://digitarq.arquivos.pt/viewer?id=1016228
Alice Moderno, que nasceu em 1867, teve a oportunidade de viver e assistir à queda da monarquia, saudar o advento da República e “aderir de alma e coração ao partido republicano”, segundo Maria da Conceição Vilhena, e passar os últimos anos da sua vida, primeiro sob a Ditadura Militar e depois sob o Estado Novo.
Até ao momento, não encontramos qualquer informação sobre a participação de Alice Moderno na vida interna de qualquer partido, o que é conhecida é a sua defesa do regime republicano no seu jornal “A Folha”, mesmo após algumas deceções que lhe causaram algumas medidas tomadas pelos republicanos no poder.
Entre Junho de 1918 e Maio de 1925 publicou-se em Ponta Delgada o semanário republicano “A Pátria” que, entre outros, teve como diretores José da Mota Vieira e António Medeiros Franco. De entre os colaboradores do jornal contaram-se Alice Moderno e a sua amiga, a professora Maria Evelina de Sousa, também republicana convicta.
Através dos números do jornal a que tivemos acesso, desde o primeiro até ao publicado a 16 de junho de 1924, concluímos que o contributo de Alice Moderno foi bastante modesto, tendo-se limitado à publicação de dois poemas, “4 de Julho”, no número 6, datado de 11 de julho de 1918 e “Resposta de Roosevelt”, no número 10, datado de 8 de agosto de 1918, que abaixo se transcreve:
Quando foram dizer ao grande ex-presidente
Que o seu filho mais novo, ainda adolescente,
Tenente-aviador do exército da América,
Recebera no front a morte heroica e épica
Que consagra os heróis, no solo o mais sagrado,
Lutando em prol do Ideal, agora espezinhado
Pelo militarismo, a contrapor afeito
O direito da força à força do Direito,
Roosevelt respondeu, com voz que não tremia:
“Minha mulher e eu sentimos alegria
Ao ver que o nosso filho, única e simplesmente,
Cumprindo o seu dever, honrou a pátria ausente!”
Sem comentário algum, dobremos o joelho,
E ó pais de Portugal, vede-vos neste espelho!
Para além do mencionado, Alice Moderno foi autora de uma carta aos diretores do jornal, publicada a 3 de dezembro de 1923 onde considerou deplorável o uso de “carroças puxadas por animais das espécies lanígera e caprina”, o qual contrariava uma postura municipal que nos primeiros tempos foi cumprida para depois cair no esquecimento da própria polícia de Ponta Delgada.
A colaboração de Maria Evelina de Sousa para o jornal “A Pátria” foi maior, tendo para além do poema Aspiração, publicado a 10 de março de 1924, sido autora de vários textos, a maioria dos quais relacionados com a educação/ensino.
Num dos textos, publicado a 19 de novembro de 1923, Maria Evelina de Sousa saúda a decisão das juntas republicanas das paróquias de Lisboa de criar cantinas escolares, fazendo votos para que “o exemplo frutifique e em breve o possamos ver também na cidade de Ponta Delgada”. Como argumento a favor, a autora aponta o facto de o fornecimento de uma refeição diária nas escolas levar a que as famílias matriculem os seus filhos “de melhor vontade”, resultando “uma dupla alimentação: física e intelectual”.
Outro texto interessante é o que foi publicado no número que veio a público a 26 de novembro de 1923, onde Maria Evelina de Sousa sugere a alteração da lei eleitoral para que o voto seja efetivamente livre, propondo que só pudesse “votar quem, sabendo ler e escrever, possua a mais completa liberdade de ação”.
Para acabar com a “força política dos detentores da propriedade, dos donos das terras”, Maria Evelina de Sousa propõe que sejam eliminados dos cadernos eleitorais todos os rendeiros “porque em geral da renda faz parte o voto de que o senhorio dispõe a seu talante, por vezes servindo-se dele para ver se entrava a marcha evolutiva dos princípios liberais”.
Hoje, a situação está profundamente alterada, mas se se eliminassem dos cadernos eleitorais todos os que, mesmo tendo frequentado a escola, não sabem ler ou não são capazes de compreender um texto de três linhas e todos os frequentadores das adulteradas sessões de esclarecimento, cujo principal atrativo é o porco no espeto, talvez as eleições fossem um pouco mais livres.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30612, 22 de abril de 2015, p.14)
Foto: http://digitarq.arquivos.pt/viewer?id=1016228
quarta-feira, 8 de abril de 2015
domingo, 5 de abril de 2015
quarta-feira, 25 de março de 2015
Maria Evelina de Sousa
A Pátria, 12 de novembro de 1923
Maria
Evelina de Sousa condenada ao esquecimento?
Desconhecemos a razão do desprezo a que
sido votada, por parte das mais diversas entidades, Maria Evelina de Sousa (1
de janeiro de 1879 – 12 de fevereiro de 1946) que foi uma distinta professora
primária e jornalista micaelense. Com efeito, não conhecemos nenhuma rua com o
seu nome e não recebeu qualquer “condecoração”, nem mesmo a título póstumo.
Nasceu em Ponta Delgada, cidade onde
frequentou a Escola Distrital de Habilitação ao Magistério, tendo concluído o
curso em 1900 (?) com a classificação de 17 valores.
A partir de 1904 começou a lecionar na
Escola de Santa Clara, tendo, quatro anos mais tarde, em 1908, sido responsável
pela criação da primeira biblioteca escolar do círculo, iniciativa muito
comentada na sociedade micaelense e na comunicação social da altura.
No âmbito do ensino, Maria Evelina de
Sousa, procurou introduzir inovações nos Açores, tendo aprendido o método de
leitura e escrita, Método Legográfico-Luazes, com a sua autora, a professora,
pedagoga e escritora Maria Amália Luazes, que foi a fundadora do Instituto do Professorado
Primário Oficial Português, em 1916. Assim, Maria Evelina de Sousa ofereceu-se
para explicar, a título gratuito, o método a todos os professores que o
quisessem aprender. Foi, também, por sua iniciativa que se realizou em Ponta
Delgada uma conferência de propagando do
método de João de Deus.
Em
matéria de ensino, ainda durante a monarquia, Maria Evelina de Sousa defendeu
que nos estabelecimentos escolares não devia ser permitido o ensino de matéria
religiosa, o que veio a acontecer com a implantação da República.
Pouco
depois da implantação da República, Maria Evelina de Sousa escreveu uma carta
aberta ao Dr. Francisco d’Ataíde Machado de Faria e Maia, presidente da
Comissão Administrativa Republicana, onde apresentou um plano de remodelação do
ensino primário oficial para a cidade de Ponta Delgada, tendo entre outras
medidas defendido a criação de quatro escolas centrais e a criação de uma rede
de escolas que deveria incluir “as diferentes associações que, trabalhando
isoladamente, têm o mesmo objetivo” e que eram
a Associação Século XX, as Comissões de Beneficiência e Ensino e a Associação das Filhas de Maria.
Como jornalista é de destacar a sua
colaboração, entre 1904 e 1907, no jornal portuense dedicado aos interesses da
instrução e do professorado “O Campeão Escolar” e a fundação e direção e
redação da “Revista Pedagógica”, que se apresentava como órgão do professorado
oficial açoriano e que, entre 1909 e 1915, esteve ao serviço da educação e dos
professores, tendo sido distribuída a nível nacional. Para além de colaborar no
jornal “A Folha”, fundado em 1922 pela sua amiga Alice Moderno, foi, a partir
de 12 de maio de 1915, secretária de redação daquele jornal e colaboradora do
jornal “Correio dos Açores”, onde publicou alguns artigos de opinião e poesia
diversa.
Fez parte da comissão organizadora da
Escola Industrial de Rendas de Bilros que funcionou em Ponta Delgada sob a
regência da professora D. Hortense de Morais.
No âmbito da defesa dos Animais, foi com
Alice Moderna uma das principais dinamizadoras da criação da Sociedade
Micaelense Protetora dos Animais, em 1911, tendo sido ela a responsável pela redação
dos estatutos e mais tarde, criada a associação, assumido vários cargos nos
órgãos sociais da mesma.
Foi militante de várias associações defensoras da
causa feminista, como a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, tendo sido
homenageada por esta instituição em Agosto de 1912, a Associação de Propaganda
Feminista, fundada, em 12 de Maio de
1911, por Ana de Castro Osório, e a Associação Feminina de Propaganda
Democrática, criada em 1915 e dissolvida em Junho de 1916, que se identificava
com o Partido Democrático e apoiava a ação política de Afonso Costa.
Aposentou-se
a 13 de Julho de 1940, após trinta e seis anos de bom e efetivo serviço sendo,
na altura, professora da Escola Agostinho Machado Bicudo Correia, localizada na
freguesia de São Pedro, em Ponta Delgada.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30589, 25 de março de 2015,
p.16)
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